O Google Marketing Live é, há vários anos, uma cerimónia anual em que a indústria publicitária se reúne para ouvir a Google explicar, com vocabulário renovado, mais ou menos a mesma coisa: que a pesquisa está a mudar, que o vídeo continua importante, que a medição é fundamental, e que existe agora uma ferramenta nova para resolver problemas que, na edição anterior, ainda não tinham sido formulados.
A edição de 2026 distingue-se sobretudo pela ausência de qualquer hesitação relativamente ao papel central que a inteligência artificial passou a ocupar. Onde antes existia entusiasmo cauteloso, existe agora um plano de produto. Quatro anúncios, todos organizados em torno da mesma ideia: a Gemini no centro de cada decisão de marketing.
1. Pesquisa: a melhor coisa que aconteceu à pesquisa, segundo a pesquisa
A Google afirma, sem grande modéstia, que a IA é "a melhor coisa que alguma vez aconteceu à pesquisa." É uma formulação interessante, considerando que a mesma tecnologia é, simultaneamente, a maior ameaça estrutural ao modelo tradicional de pesquisa que a empresa construiu durante duas décadas. Mas a coerência narrativa, em comunicação corporativa, raramente é uma prioridade.
O AI Max expande-se agora a campanhas de Shopping e Travel Ads, e surge o AI Brief, que permite aos profissionais de marketing "guiar a IA pelas suas próprias palavras" — uma formulação delicada para descrever o regresso, em formato premium, da prática tradicional de escrever briefings. Há algo de tranquilizador em ver a indústria redescobrir, periodicamente, instrumentos que nunca chegou a perder.
2. YouTube: o motor que prevê o desejo antes de existir
O Demand Gen combina sinais da Pesquisa, do Maps e do YouTube para prever quem deseja a marca antes ainda de procurar por ela — uma promessa que a indústria publicitária persegue, com diferentes vocabulários, desde aproximadamente 1962. Foi anteriormente chamada de segmentação preditiva, depois de marketing comportamental, depois de IA, e agora simplesmente de Demand Gen.
As novidades incluem extensão ao Google Maps, novos espaços de Product Feed, e soluções de atribuição mais precisas. A precisão, neste contexto, é normalmente avaliada por comparação com a versão anterior - e não com a realidade, que continua a ser uma referência mais incómoda.
3. Commerce: comércio agentic, ou a remoção elegante do consumidor
O Commerce Agentic propõe que o consumidor possa comprar "no segundo exato" em que encontra o que necessita. A formulação merece atenção: assume-se, com algum optimismo, que o consumidor já sabe o que necessita, e que a fricção entre o desejo e a compra é um problema a eliminar - e não, ocasionalmente, um mecanismo útil de reflexão.
O Universal Commerce Protocol permite que os utilizadores pesquisem, encontrem e comprem dentro da conversa com a Gemini, sem nunca sair dela. É uma evolução elegante: o consumidor permanece no ecossistema, a marca permanece visível, e a decisão de compra ocorre num ambiente cuidadosamente desenhado para que pareça espontânea.
4. Measurement: a fundação que precisa de ser refundada todos os anos
A medição é, segundo a Google, "a fundação para o crescimento." É também, curiosamente, uma fundação que requer ser reconstruída com regularidade impressionante, normalmente coincidindo com o lançamento de novas ferramentas proprietárias.
A novidade central é o Google Analytics como "Data Command Center," integrando o Data Manager e o Meridian - o modelo de Marketing Mix Modeling da própria Google. A proposta é credível e tecnicamente sólida. É igualmente verdade que o crescimento da empresa que vende o espaço publicitário passa a ser medido com a ferramenta da mesma empresa, calibrada por outra ferramenta da mesma empresa. A independência metodológica não é, neste contexto, uma característica destacada.
Considerações finaisSob o vocabulário renovado, a mensagem do GML 2026 é razoavelmente simples: a Google reorganiza o seu ecossistema para que a Gemini ocupe o centro da decisão publicitária - na pesquisa, no vídeo, no comércio e na medição. É um movimento estratégico coerente, executado com a calma habitual de quem detém uma quota de mercado considerável.
A pergunta legítima, para quem investe orçamento publicitário em 2026, não é se estas ferramentas funcionam. É provável que algumas funcionem bastante bem. A pergunta é outra: à medida que mais decisões são delegadas à IA da Google, em mais pontos da jornada do consumidor, quanto resta, na prática, da estratégia da marca? E quanto resta a quem a paga?
A tecnologia continua a evoluir com rapidez notável. A pergunta sobre quem decide, encorajadoramente, continua a operar a um ritmo mais tradicional.